O que é zero trust?
Zero trust é uma estrutura de segurança de TI criada pela Forrester em 2010. Esse modelo trouxe uma abordagem inovadora, substituindo o antigo conceito de castelo e fosso, que perdeu eficácia diante do crescimento do uso de dispositivos móveis, trabalho remoto e computação em nuvem, resultando em perímetros cada vez mais vulneráveis. O modelo zero trust parte do princípio de que não existe mais um limite definido de rede, pois os ambientes podem ser locais, em nuvem ou híbridos, com recursos e usuários amplamente distribuídos.
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A premissa do modelo zero trust é clara: nenhum usuário - seja humano ou não, esteja dentro ou fora dos limites da rede - deve receber confiança automaticamente. O acesso deve ser concedido apenas mediante comprovação dos requisitos, sempre baseado no princípio do menor privilégio, ou seja, apenas o acesso estritamente necessário e pelo tempo indispensável.
O modelo de zero trust segue o princípio do menor privilégio: por padrão, nega o acesso a todos os Recursos digitais e só concede autorizações conforme a necessidade, limitando-as ao mínimo indispensável para a execução de funções ou tarefas específicas.
Quando o acesso a aplicativos, dados, serviços e sistemas é concedido, ele é segmentado e isolado ao máximo, garantindo controle rigoroso sobre cada permissão.
No modelo de zero trust, a confiança é definida pelo contexto - como identidade e localização do usuário, classificação de segurança do ponto de acesso ou o aplicativo ou serviço que solicita acesso. Antes de qualquer autorização, os usuários passam por autenticação e validação. O monitoramento contínuo garante que estejam sempre em conformidade com as políticas, configurações e requisitos de segurança.
Zero trust e NIST 800-207
A primeira versão da Publicação Especial (SP) 800-207 do NIST (National Institute of Standards and Technology) foi lançada em 11 de agosto de 2020. Voltada para políticas e programas federais de cibersegurança, a NIST 800-207 oferece um modelo de zero trust abrangente, neutro em relação a fornecedores, além de um roteiro para implementação de uma arquitetura de zero trust (ZTA).
A NIST 800-207 fornece diretrizes para projetar e implementar um modelo de confiança zero, detalhando os componentes essenciais de uma arquitetura de confiança zero (ZTA). São sete os princípios fundamentais desse modelo:
- O acesso a recursos individuais da empresa é concedido por sessão
- O acesso aos recursos é definido por políticas dinâmicas
- Toda comunicação é protegida, independentemente da localização da rede
- Todas as fontes de dados e serviços de computação são considerados recursos
- As etapas de autenticação e autorização de recursos são dinâmicas e rigorosamente aplicadas antes da liberação do acesso
- Informações sobre o estado atual de ativos, infraestrutura de rede e comunicações são coletadas continuamente para aprimorar a postura de segurança
- A integridade e a postura de segurança de todos os ativos próprios e associados são monitoradas e avaliadas
- O acesso deve ser concedido apenas com os privilégios mínimos necessários para a execução da tarefa
- Autenticação e autorização para um recurso não garantem acesso automático a outros recursos
- A confiança no solicitante é avaliada antes da liberação do acesso
- Princípios de privilégio mínimo devem ser aplicados para restringir o acesso
- Defina quais são os recursos, quem são os membros e quais acessos cada membro necessita
- Solicite informações sobre o estado do ativo, como:
- Conjunto de regras de acesso baseadas em atributos definidos pela organização para um sujeito, ativo de dados ou aplicativo
- Características do dispositivo (por exemplo, versões de software instaladas, localização de rede, data/hora da solicitação, comportamento previamente observado e credenciais instaladas)
- Atributos comportamentais (por exemplo, analytics automatizados de sujeitos, analytics de dispositivos e desvios medidos dos padrões de uso observados)
- Todas as solicitações de acesso devem atender aos mesmos requisitos de segurança, independentemente de serem feitas por usuários internos ou externos
- Toda comunicação deve:
- Assumir que a localização na rede não implica confiança
- Ser realizada da forma mais segura disponível
- Proteger a confidencialidade e a integridade
- Garantir autenticação da origem
- A arquitetura deve suportar diferentes classes de dispositivos, incluindo:
- Dispositivos de pequeno porte (por exemplo, Internet das Coisas - IoT) que enviam dados a agregadores e armazenamentos
- BYOD (Bring Your Own Device), como celulares, tablets e notebooks
- Sistemas que enviam instruções a atuadores e outras funções
- XaaS (Anything as a Service), como SaaS e IaaS
- O processo envolve um ciclo contínuo de obtenção de acesso, análise e avaliação de ameaças, adaptação e reavaliação constante da confiança nas comunicações
- Empresas que implementam o modelo de confiança zero devem contar com sistemas de gerenciamento de identidade, credenciais e gerenciamento de acesso, além de gestão de ativos, incluindo monitoramento contínuo, com possibilidade de reautenticação e reautorização durante as transações
- Os processos de autorização e autenticação devem ser definidos e aplicados por políticas (por exemplo, baseadas em tempo, novo recurso solicitado, modificação de recurso ou detecção de atividade anômala) que busquem equilibrar segurança, disponibilidade, usabilidade e eficiência de custos
- Colete dados sobre a postura de segurança dos ativos, tráfego de rede e solicitações de acesso
- Analise esses dados
- Utilize insights de analytics para aprimorar a criação e aplicação de políticas
- Use analytics para fornecer contexto às solicitações de acesso
- Trate de forma diferenciada os ativos comprometidos, com vulnerabilidades conhecidas ou não gerenciados pela empresa
- Estabeleça diagnósticos e mitigação contínuos para monitorar o estado de dispositivos e aplicativos
- Avalie a postura de segurança do ativo ao considerar uma solicitação de recurso
- Monitore a aplicação de patches e atualizações
- Utilize sistemas de alerta e relatórios para fornecer dados acionáveis sobre o estado dos recursos da empresa
Leia também: NIST SP 800-30: Guia para a condução de avaliações de risco
Como funciona o modelo de confiança zero
O modelo de confiança zero opera por meio da integração de diversas tecnologias de segurança, como autenticação, gerenciamento de identidade, controles de acesso a arquivos e proteção de endpoints, garantindo a verificação e autenticação contínua das identidades dos usuários.
As principais funções que sustentam a eficácia desse modelo incluem:
Identifique todos os usuários e os recursos que acessam
- Classifique os Recursos conforme o nível de risco
- Estabeleça políticas de acesso para Recursos
- Separe usuários de acordo com função e cargo
- Tenha visibilidade completa sobre todos os usuários, dados e Recursos de TI
Garanta visibilidade em tempo real dos atributos de identidade dos usuários
- Aplicativos instalados nos endpoints
- Padrões de comportamento
- Privilégios de credenciais em cada dispositivo
- Tipo e função do hardware do endpoint
- Versões de firmware
- Versões do sistema operacional e níveis de atualização
- Identidade do usuário e tipo de credencial
- Localização do usuário
Monitore o acesso e aplique as políticas
- Implemente políticas de forma rápida e consistente.
- Monitore e autentique todas as solicitações de acesso conforme as políticas estabelecidas.
- Valide o contexto do acesso dos usuários.
Desenvolva e implemente um plano de resposta e resolução de incidentes.
- Ajuste a segmentação da rede sempre que um problema for detectado ou um incidente ocorrer.
- Prepare-se e execute ações direcionadas em resposta ao incidente.
- Quarentene usuários suspeitos.
- Revogue o acesso de usuários ou dispositivos que apresentem comportamento anômalo.
Analise e aperfeiçoe
Avalie e ajuste políticas e parâmetros de autorização. Execute táticas de correção para reforçar a proteção. Implemente atualizações para aprimorar a segurança com base em Analytics.
Casos de uso de zero trust
Os principais casos de uso do modelo zero trust incluem:
- Controle de acesso a ambientes de nuvem e containers
- Implementação de microssegmentação de rede
- Proteção avançada contra ataques centrados em identidade, como ameaças internas, ransomware e ataques à cadeia de suprimentos
- Atendimento a padrões de segurança para manutenção do seguro cibernético
- Redução de riscos para os negócios e para a organização
- Proteção adicional além do que VPNs oferecem para acesso remoto
- Proteção de modelos de implantação de infraestrutura, incluindo sistemas legados
- Redução do risco de vazamento de dados
- Controle de acesso seguro para terceiros dentro da rede corporativa
- Suporte a iniciativas de conformidade com exigências governamentais, do setor e corporativas
- Prevenção contra malware e outros vetores de ataque cibernético
- Proteção para ambientes multi-cloud e híbridos
- Segurança para aplicações SaaS e dispositivos não gerenciados
Princípios fundamentais do modelo zero trust
A seguir, apresentamos os princípios fundamentais do modelo zero trust, muitos deles baseados na NIST 800-207. Vale destacar que o termo usuários abrange pessoas, dispositivos, sistemas e aplicações.
Minimização da superfície de ataque
O modelo de confiança zero adota controles de acesso rigorosos para reduzir ao máximo a superfície de ataque da rede. Usuários acessam apenas os Recursos essenciais para executar suas funções.
Coleta de contexto
Em conformidade com a NIST 800-207, o modelo de confiança zero orienta a coleta e análise de dados para verificação. Entre os tipos de dados recomendados para autenticar usuários e estabelecer confiança estão:
- Anomalias
- Interfaces de Programação de Aplicativos (APIs)
- Classificação de dados
- Integridade dos dispositivos
- Endpoints utilizados para acessar dados
- Inteligência de ameaças
- Credenciais de usuários, incluindo credenciais de single sign-on (SSO)
- Localização do usuário
- Workloads e serviços
Eliminação de conexões abertas
No modelo de zero trust, todas as conexões abertas devem ser encerradas. Essa abordagem viabiliza a inspeção em tempo real do tráfego, inclusive o criptografado, antes que ele alcance o destino, bloqueando a propagação de malware e ransomware.
Verificação explícita e contínua
A exigência de verificação explícita e contínua é a base do princípio do zero trust: nunca confie, sempre verifique.
O modelo de zero trust elimina zonas confiáveis, credenciais e dispositivos ao exigir verificação contínua - nenhum usuário deve receber confiança automática.
Três elementos essenciais são necessários para sustentar esta etapa do modelo de zero trust:
- Processos de implantação de modelos de política dinâmicos, capazes de serem implementados rapidamente para responder a mudanças em cargas de trabalho, dados e usuários
- Logins e conexões configurados para expirar periodicamente após o estabelecimento, exigindo verificação contínua dos usuários
- Acesso condicional baseado em risco, que garante verificação contínua sem afetar a experiência do usuário, interrompendo fluxos de trabalho apenas quando os níveis de risco mudam
Políticas granulares baseadas em contexto
No modelo de zero trust, políticas dinâmicas e adaptáveis são aplicadas para reavaliar o acesso dos usuários conforme o contexto se altera continuamente. Essas políticas verificam solicitações e direitos de acesso com base em diversos critérios contextuais, como:
- Aplicativo solicitado
- Dispositivo
- Localização
- Tipo de conteúdo
- Identidade do usuário
Prevenção de movimentação lateral
O modelo de confiança zero foi desenvolvido para impedir que usuários autorizados se movimentem dentro da rede após obterem acesso, prática conhecida como movimentação lateral. Diversos elementos desse modelo contribuem para mitigar esse risco, como a microsegmentação, o monitoramento e a verificação contínua.
Acesso com privilégio mínimo
A aplicação do acesso com privilégio mínimo é um princípio fundamental do modelo de confiança zero. Essa abordagem controla a exposição dos Recursos, concedendo aos usuários apenas o acesso necessário para executar suas funções. Em resumo, o privilégio mínimo garante acesso estritamente de acordo com a necessidade.
Microsegmentação
No modelo de zero trust, a microsegmentação divide os parâmetros de segurança em regiões menores, distribuídas em diferentes partes da rede, conforme a classificação dos dados. Isso restringe o acesso dos usuários apenas às áreas autorizadas. Ao acessar uma área, o usuário precisa passar por nova validação e autorização para acessar qualquer outra.
Monitoramento e alertas
O modelo de zero trust exige monitoramento contínuo, com alertas automáticos sempre que forem detectadas anomalias. Esse monitoramento oferece a visibilidade necessária para avaliar a eficácia das políticas e identificar possíveis vulnerabilidades.
A agilidade é fundamental na identificação de incidentes, por isso a automação é indispensável para a efetividade do modelo de zero trust. É essencial monitorar o comportamento dos usuários, movimentações de dados, alterações na rede e modificações de informações.
Implementação do zero trust
As três fases essenciais para a implementação do modelo de confiança zero são: visualização das conexões entre todos os recursos, mitigação de riscos e do impacto de um ataque bem-sucedido e otimização.
- Obtenha visibilidade sobre vulnerabilidades e riscos
- Visualize todas as entidades, incluindo endpoints, identidades e workloads
- Compreenda todos os Recursos e os pontos de acesso associados para avaliar riscos
- Identifique caminhos potenciais de ataque e Recursos em risco
- Detecte e bloqueie ameaças
- Estabeleça processos e identifique ferramentas para automatizar a detecção e resposta a ameaças
- Priorize a resposta a incidentes críticos
- Impeça movimentos laterais
- Reduza o impacto de ataques que possam causar vazamento de dados
- Estenda processos e protocolos de confiança zero para toda a infraestrutura de TI
- Implemente testes para garantir a eficácia e usabilidade dos sistemas e processos
- Utilize Analytics para identificar vulnerabilidades e oportunidades de otimização
As etapas para implementar o modelo de confiança zero, também conhecidas como os sete pilares desse modelo, são:
- Automação e orquestração: Utilize ferramentas de automação e gestão para implementar e reforçar o modelo de confiança zero
- Segurança de dados: Isole dados confidenciais de todos, exceto dos que realmente precisam de acesso
- Segurança de dispositivos: Identifique e valide dispositivos controlados por usuários e autônomos que tentam se conectar à rede
- Segurança de rede: Microsegmente e isole Recursos confidenciais
- Segurança da força de trabalho: Identifique e valide os usuários que tentam se conectar à rede
- Visibilidade e Analytics: Use tecnologia e inteligência artificial (IA) para automatizar processos, como detecção de anomalias e controle de configurações, além de garantir visibilidade de ponta a ponta
- Segurança de workloads: Identifique e valide aplicações, processos digitais e Recursos de TI públicos e privados
Modelo de Maturidade Zero Trust da CISA
A Agência de Segurança Cibernética e de Infraestrutura (CISA) desenvolveu o Modelo de Maturidade Zero Trust (ZTMM) para orientar todas as agências federais e as organizações que atuam com elas na adoção de um modelo de segurança baseado em zero trust.
O modelo zero trust da CISA é estruturado em cinco pilares fundamentais:
- Aplicações e cargas de trabalho: proteja todas as aplicações e cargas de trabalho - locais, em nuvem ou híbridas.
- Dados: garanta a segurança de todos os dados, em repouso ou em trânsito, utilizando criptografia e controles de acesso.
- Dispositivos: proteja todos os dispositivos conectados à rede da organização.
- Identidade: autentique e autorize os usuários antes de conceder acesso aos recursos.
- Redes: proteja todo o tráfego de rede, independentemente da localização do usuário ou do recurso, e implemente segmentação e microsegmentação de rede.
No modelo zero trust da CISA, a identidade apresenta quatro estados de maturidade definidos:
- Identidade tradicional autenticada com acesso estático para a identidade da entidade
- Identidade inicial autenticada com validação de múltiplos atributos da entidade
- Identidade avançada autenticada com atributos resistentes a phishing
- Identidade ideal validada de forma contínua, e não apenas no momento inicial de concessão de acesso
O modelo de zero trust da CISA também destaca capacidades essenciais:
- Visibilidade e Analytics para otimizar decisões de política e permitir que as equipes de segurança adotem ações defensivas proativas antes que incidentes ocorram
- Automação e orquestração com ferramentas e fluxos de trabalho que apoiam as funções de resposta de segurança
- Governança para garantir responsabilidade na gestão e mitigação de riscos de segurança
O modelo de zero trust potencializa os controles de segurança já existentes
A implementação do modelo de zero trust exige repensar e reconfigurar os sistemas para aplicar seus princípios fundamentais.
Também é necessário adotar sistemas complementares que ajudem a lidar com a fragmentação dos perímetros tradicionais da empresa, já que a maioria dos Recursos corporativos está distribuída entre data centers privados e múltiplas nuvens, com cada vez mais aplicativos e armazenamentos hospedados.
Muitas organizações que adotaram o modelo de zero trust registraram melhorias significativas na segurança como um todo e redução de incidentes de vazamentos de dados e acessos não autorizados.